O melhor dos blog's, (para mim)se quer ver o seu texto aqui de-me o link do seu blog) Obrigado a todos pela qualidade e sentido de critica, opinião e humor dos vossos textos.

segunda-feira, 12 de novembro de 2007

http://abrupto.blogspot.com/

COISAS DA SÁBADO: TOMAR A SÉRIO O CASO EM VOLTA DO CASO CASA PIA?


Catalina Pestana foi escolhida para ficar à frente da Casa Pia num momento difícil da instituição. Dois governos validaram essa escolha, o que significa que, de algum modo, passou o teste de ter o lugar apenas por compadrio político. É verdade que o critério para se estar à frente da Casa Pia, como da Santa Casa da Misericórdia, é um pouco bizarro e mal esclarecido, pois corresponde a um perfil muito sui generis de pessoas, que inclui sempre alguma relação privilegiada com a Igreja e com redes de influência entre o trabalho social, o militantismo católico, mesmo heterodoxo, e algumas maçonarias sem nome, como a que existia à volta de Maria de Lurdes Pintasilgo. São também, nos últimos anos, “lugares de mulheres”, na ideia que estas serão mais sensíveis aos problemas sociais que essas instituições defrontam. É uma mescla estranha, de que Catalina Pestana faz parte, mas isso neste caso funciona mais como território de independência.

O que Catalina Pestana tem vindo a dizer preto no branco em entrevistas públicas, a que se soma a informação que acrescentou em privado e confidencialmente aos responsáveis do MP e da Casa Pia, é que existe uma acção concertada, para proteger um grupo de poderosos envolvidos em crimes de pedofilia. Aponta o dedo a círculos do PS e da maçonaria. Concretiza as suas acusações reafirmando a sua convicção da culpabilidade de Paulo Pedroso e acusando os socialistas de terem alterado os Códigos para proteger os acusados no processo Casa Pia. Catalina Pestana não faz meias acusações, coloca nomes, circunstâncias e factos suspeitos na sua voz, na primeira pessoa.

A resposta a Catalina por parte dos visados é, para não ir mais longe, frouxa e incomodada. Por um lado, há uma clara tentativa de a desacreditar, por outro, uma ausência de acção que só dá força às suspeitas lançadas. Por exemplo, nomeia directamente Paulo Pedroso, que no passado processou muitos dos seus acusadores e jornalistas que trataram o caso, mas que agora diz ter intenção de não o fazer à sua acusadora actual. Do mesmo modo, continua sem ser esclarecida a história das alterações aos Códigos nos seus artigos mais sensíveis para o caso Casa Pia, sem se perceber o que aconteceu às actas da Comissão e quem introduziu essas alterações. Sabe-se quem diz que não foi responsável, não se sabe quem foi o responsável e parece cada vez mais que há um encobrimento sobre essa alterações.

Não me parece haver loucura especial nas palavras de Catalina Pestana e os que agora a tentam desacreditar foram alguns dos que a escolheram ou a aceitaram para as funções que exerceu. É verdade que essas palavras são diminuídas pelo clima de perseguição contra os políticos em geral para que o MP deixou descambar o processo Casa Pia cujas fragilidades são evidentes. Tanto se quis pescar de arrasto que se perdeu o foco nos primeiros peixes da rede, e há deficiências que Catalina aponta que não precisam de ser explicadas por qualquer conspiração, basta a negligência e a politização justicialista da investigação para as explicar. Mas, descontando tudo isto, alguma coisa sobra e é suficientemente grave para não ser coberta por qualquer manto de silêncio. O que Catalina Pestana diz, caso seja verdade, conduziria, em qualquer país civilizado, à queda do governo e à incriminação de todos os envolvidos naquilo que é, na verdade, o retrato de uma conspiração

http://jumento.blogspot.com/

A CASA DE SANTA COMBA DÃO

«Em 1975, um amigo da altura inventou uma excursão a casa de Salazar. Lá fui penosamente, sem perceber muito bem o propósito do exercício. A casa, na estrada do Vimieiro, térrea e (se não me engano) pintada de amarelo, não tinha nada para ver. Não me consigo lembrar se entrei e se vi a horta. O que diz tudo sobre a banalidade do sítio. O Vimieiro e Santa Comba Dão eram um deserto. Saí dali com a sensação de tempo perdido. Aquilo nem sequer mostrava a austeridade e a modéstia do ditador (tinha telefone, por exemplo). Nem o reaccionarismo do regime. Mostrava só que o ditador gostava de passar as férias numa aldeia isolada, provavelmente para não o maçarem como o maçariam em qualquer outro sítio. No fim da vida, de resto, quando as coisas se complicaram, ia para o forte do Estoril, mais perto e acessível.

Santa Comba Dão quer agora fazer "um museu" da casa de Salazar. O que se compreende muito bem. Tanto quanto sei, só a casa de Salazar pode atrair a Santa Comba Dão um ocasional turista; e o "museu" fica por uns potes de cal e uma limpeza. Com sorte, o café da terra, se existir, ganha algum dinheiro e aparece um espertalhão a vender "relíquias". Tudo isto é inofensivo e um pouco patético. Mas bastou para provocar a indignação da velha esquerda pliocénica, que nem sempre se distinguiu pelo ardor democrático. Um abaixo-assinado, entregue solenemente na Assembleia da República, pede que se proíba o "museu", como se o "museu" fosse uma espécie de reabilitação de Salazar e o salazarismo ameaçasse ressurgir do Vimieiro a um euro e meio por bilhete.

Não ocorre a ninguém que de Santa Comba Dão nunca virá um culto de Salazar como o culto (aliás, ridículo) de Mussolini em Predappio. Ao neo-salazarismo faltam as forças que provocaram e criaram o salazarismo: falta o ódio à violência da ditadura jacobina e o medo (real) de uma revolução comunista, falta a militância activa de uma Igreja ainda dominante; falta um exército humilhado, policiado e coagido a meter no quadro permanente centenas de "voluntários" da Grande Guerra. E falta um país rural, hostil à República de Lisboa. Salazar é um homem do passado remoto. De um passado irreconhecível. O negócio de Santa Comba Dão com a casa do homem é irrelevante para a cultura política do regime. E talvez não seja para Santa Comba Dão. Os censores da consciência nacional deviam, de preferência, olhar para eles.»

http://sorumbatico.blogspot.com/

Promessas natalícias
Por Alice Vieira
O ATAQUE É CERRADO. Chega pelo telefone , pelo correio, por SMS, por rádio, por televisão.
A crer no que todos prometem, a nossa vida será o paraíso.
Viagens, compras, casa, carro, computador, férias - tudo fica, subitamente, ao alcance da nossa bolsa.
Porque é só preciso ligar, clicar, responder, preencher um mísero impresso. Nada mais simples. Nada mais fácil. E tudo será nosso num abrir e fechar de olhos.
"Com a linha de crédito X pode realizar os seus sonhos", garante-me a carta de uma instituição bancária na minha caixa de correio. Dão-me acesso ("especialmente para si"- e se eles pensam especialmente em mim, quem sou eu para recusar) a "um plafond de dois mil euros com aceitação automática", e a partir daí a gente já nem lê o resto, tem ali dinheiro para gastar, isso é o que importa, e eles lembram que o Natal está a chegar e que tudo isto lhe vai dar "um brilho especial".
Tudo tão fácil.
De repente temos todos os problemas resolvidos. As crianças pequenas que querem o boneco que deita bolhas pela boca, e as mais velhas que se aliam aos adultos e querem telemóveis topo de gama, MP3, iPod e outras maravilhas fatais da nossa idade, e a reforma dos móveis da sala, e um segundo automóvel sem o qual vivemos tão mal, e aquela semana em Porto Galinhas que estamos sempre a adiar - tudo imediatamente resolvido.
E o hipermercado também ajuda, porque somos felizes possuidores de um cartão que nos permite pagar tudo só daqui a três meses. E outra grande superfície deu-nos ainda a possibilidade de fazer a reforma inteira da cozinha em suavíssimas prestações ("suave" é sempre o termo utilizado quando se fala de prestações), tão suaves ou mais do que as que já utilizamos para o pagamento do colchão ortopédico que oferecemos à nossa sogra e que até tinha uma artista qualquer da telenovela a fazer a publicidade nos cartazes.
E todas as noites atendemos telefonemas ou recebemos mensagens de instituições bancárias a oferecer crédito para tudo com que sonhamos, e nós sorrimos felizes, caramba, como os bancos gostam de nós, como eles só querem a nossa felicidade e o nosso bem-estar, como nos simplificam a vida.
Depois um dia ouvimos na rádio que os portugueses continuam a endividar-se cada vez mais, e até sorrimos, e temos pena deles, desses portugueses endividados, palermas, ter dívidas, que horror!, nós não, nós temos apenas umas suavíssimas prestações de meia dúzia de tarecos sem importância, sabemos perfeitamente controlar as despesas, claro que sabemos, e além disso os bancos garantiram-nos todo o apoio.
Até ao dia em que de repente descobrimos que a meia dúzia de tarecos foi aumentando descontroladamente sem darmos por isso, que se amontoam as facturas para pagar - e então aprendemos à nossa custa que um banco, ou qualquer instituição semelhante, entre muitos sorrisos, promessas e actores e actrizes de televisão a aliciar o pessoal, nunca nos quer dar nada.
O pior é que, geralmente, é uma descoberta muito tardia, quando o sonho se transforma, de repente, em pesadelo.
«JN» de 11 de Novembro de 2007

http://sorumbatico.blogspot.com/

São Martinho
Por António Barreto


ESTE É UM GRANDE SANTO! Trabalhador, soldado e milagreiro, veio dos lados da Hungria, no século IV, passou por meia Europa, acabou Bispo de Tours. Ficou famoso o episódio da capa que cortou para agasalhar um mendigo. Dezenas de igrejas são-lhe dedicadas e está representado em algumas das mais belas catedrais, como em Tours, Chartres ou Beauvais. Foi enterrado a 11 de Novembro. Vem daí o Verão de seu nome. Os seus feitos, como as actividades militares em nome do cristianismo; a fundação do primeiro mosteiro francês; a sua aclamação, como Bispo, pelo povo; a caridade que pregava e praticava; e a reputação de cura de leprosos, correm o risco de ficar no segredo dos livros. Por causa da festa do vinho. É cada vez mais provável que o seu nome fique para todo o sempre ligado a esta bebida, pela qual, que se saiba, não terá feito grande coisa.
Hoje é dia de apreciar e beber vinho. Mas também, já agora, de falar, escrever e reflectir sobre o vinho. Se existe sector ou produto no qual se fez obra importante, nas últimas décadas, foi no vinho. E na vinha, com certeza. Apesar da União Europeia. Apesar dos governos. A história da modernização da vinha e do vinho, com vinte ou trinta anos, serve para ensinamentos. Nos anos oitenta, por exemplo, o primeiro sector agrícola ou agro-industrial (para não falar de todos os outros) que soube adaptar-se às regras do mercado mundial e da Europa, foi o do vinho do Porto. Mas poucos anos foram necessários para que os outros vinhos, tinto e branco, de todas as regiões, sobretudo do Douro e do Alentejo, se transformassem e se apresentem, hoje, de boa cara e melhor corpo.
Pensemos nos anos setenta. Encontrar bons vinhos no comércio e nos restaurantes era fruto de investigação meticulosa. Os vinhos a granel, os vinhos de garrafão, os vinhos de produtor, para já não mencionar “aquelas pomadas” que condenavam a saúde de qualquer amador, eram de qualidade medíocre, mal feitos, mal fermentados, mal acondicionados, mal preservados, mal engarrafados, mal apresentados. Eram massas de vinhos indiferenciados, sem gosto nem carácter. O Barca Velha, o Frei João, o Luís Pato ou os vinhos do Buçaco eram excepções. Quase tudo estava errado, das vinhas aos tratamentos, da vinificação ao comércio. Mas, dizia-se alegremente, Portugal produzia dos melhores vinhos do mundo!
Tudo mudou. Há hoje centenas de garrafas, de marcas e de quintas que produzem excelentes vinhos, capazes de comparar com os melhores do mundo. Os melhores Portos e os melhores do Douro, do Alentejo e do Dão, também agora da Estremadura e até dos Verdes, figuram honrosamente nas listas internacionais dos melhores vinhos do mundo. Há já nomes consagrados. Ainda se não fala, na Europa ou nas Américas, da excelência do vinho português, mas já muitos conhecem o Vale Meão, o Ferreira ou Ferreirinha, o Niepoort, o Quinta do Crasto, o Symington, o Monte d’Oiro, o Esporão, o Cortes de Cima ou o Quinta do Valado. Com excepção dos vinhos da Ferreira, quase todos estes mencionados, mais outros famosos como as quintas do Côtto, do Infantado e da Casa Amarela, dos Lavradores de Feitoria, das quintas do Noval, do Vale D. Maria, da Pelada ou da Casa de Santar, têm em geral dez ou vinte anos, por vezes menos. Pintas, Poeira, VT, Vinha da Ponte, Vinha Maria Teresa, Redoma, Charme, Batuta, Chocapalha, Madrigal, Incógnito e Chryseia são nomes novos, recentes, sem tradição, mas já com enorme reputação. Além das vedetas, já há muito bons vinhos médios ou correntes. Até já há quem saiba fazer bons vinhos brancos!
Como se fez isto? Como foi possível? Com empresários dedicados, em primeiro lugar. Com investimento. Com enólogos qualificados. Com duas escolas superiores empenhadas na vinha e na enologia. Com agrónomos. Com tratamentos da vinha. Com selecção de castas e de uvas. Com ciência e tecnologia. Com adegas decentes. Com boas rolhas. Com estratégia comercial. Com a determinação de preservar o singular, o rústico, o “terroir”, como se diz na gíria. Com os olhos postos na exportação. Sem absentistas. Sem intervenção do Estado. Sem proteccionismo. Apesar do governo. Mau grado a União Europeia. Contra a indiferença das autoridades, que se escudam atrás das “políticas europeias”.
Tudo mudou? Quase tudo. Para melhor? Nem tudo. Ainda há dezenas de milhares de produtores sem qualificações e sem capacidade. Lavradores que pensam que a natureza dá e que não é preciso trabalharem. Excessivas quantidades de mau vinho. Dezenas de milhares de hectolitros que nem abaixo do preço de custo se vendem. Proprietários que imaginam que seja possível fazer vinho decente sem tecnologia e sem ciência. Cooperativas mal geridas e sem capacidade técnica ou financeira. Milhares de pequenos agricultores sem assistência técnica. Excessiva concentração financeira em certos sectores, como no do vinho do Porto. E desinteresse do governo perante um sector que já não rende, como outrora, elevada percentagem das exportações nacionais.
Há muitas lições a retirar desta breve história. O sector económico que mais e melhor mudou, proporcionalmente, foi o que teve menos intervenção dirigente do Estado. Também foi aqui que menos se fizeram obras de fachada ou colossais investimentos para dar nas vistas. Foi no vinho que se resistiu à moda de fazer igual ao estrangeiro. É no vinho que mais se tenta conciliar a tradição e a ciência. É uma profunda reforma, em curso, feita por empresários, lavradores, cientistas e técnicos, não por administradores, políticos ou empreiteiros. O que se está a fazer não começou nas leis, nem em planos integrados de reestruturação. Começou no princípio, nos empresários e nos trabalhadores, nas quintas. É por isso que não basta ter cheque, fundo europeu e lei. Por vezes, isso até atrasa.
Apostila: André Freire corrigiu-me. Com razão. Há duas semanas, dizia eu que Durão Barroso tinha mentido relativamente aos impostos: prometera baixar e tinha aumentado. Não é totalmente verdade. Baixou de facto o IRC (de 30 para 25 por cento), mesmo se aumentou o IVA (sem anunciar na campanha) e não desceu os escalões mais altos do IRS (como tinha prometido na campanha).
«Retrato da Semana» - «Público» de 11 de Novembro de 2007

sexta-feira, 9 de novembro de 2007

http://sorumbatico.blogspot.com/

O BERRO

Por Joaquim Letria

ESTE GOVERNO faz fretes, governa mal e não é market friendly. Se fosse, os negócios prosperavam, o desemprego diminuía, os investimentos aumentavam, os lucros atingiam lucros que fariam todos felizes, mesmo nesta perspectiva capitalista.
O que sucede é diferente. O tal deficit está longe de diminuir o desejado, apesar do sacrifício da sociedade portuguesa.
Mas a pouca evolução positiva decorre do aumento das receitas e não da parcimónia das despesas, como seria desejável.
O Governo continua a gastar sempre mais e cada vez pior. Se não fosse o folclore da chamada presidência portuguesa da União Europeia, de que lá fora ninguém fala nem dá por isso, e o barulho do marketing com que, por tudo e por nada, se pretende enganar o Zé Povinho, teríamos oportunidade de obrigar o Governo a falar verdade, apresentar os factos verdadeiros e discutir as melhores opções para todos nós.
Enquanto a triste realidade da nossa banca é um oceanário dos tubarões que criaram, a classe média, forçada a suportar uma asfixiante e injusta carga fiscal, vive cada vez pior até dar o berro. Resta ver quanto tempo mais vai aguentar.
«24 horas» de 8 de Novembro de 2007

http://reflexoes-e-cidadania.blogspot.com/

Liberdade de Imprensa ou Liberdade de Insulto?


O caso Maddie causou ondas de choque enormes a todos os níveis. Sinceramente, acho que ainda irá causar muitas mais. É um assunto que me irrita, pela quantidade de coisas que se escrevem e se falam, que se contradizem umas às outras sem qualquer base informativa oficial ou verificável.

A mais recente onda de choque deixa-me atónito. Trata-se da crónica do jornalista Tony Parsons no Daily Mirror publicada no dia 29/10/2007, ou seja, há quase uma semana e que aparentemente passou despercebida à maioria dos portugueses. Essa crónica, extremamente concisa e objectiva no seu conteúdo, tem o título “Oh, up yours, Senor”, (a tradução livre poderia ser “Vá levar na bilha, senhor”, para ser simpático) e é dirigida ao Embaixador de Portugal em Inglaterra, António Santana Carlos. Sim, o cronista manda o Embaixador de uma nação soberana levar na bilha, num jornal de enorme tiragem em Inglaterra.

Na crónica em questão ele não manda simplesmente o Embaixador levar na bilha. Ele refere-se à polícia portuguesa, com palavras extremamente claras, concisas e sem rodeios, como sendo espectacularmente estúpida e cruel. Diz que não tem o hábito de chamar “porcos” ou “imundos” aos polícias (hábito em Inglaterra), mas que no caso da polícia portuguesa ficaria feliz por abrir uma excepção. Diz ainda que a polícia portuguesa cobriu a sua própria humilhação acusando os pais.

Diz que os media portugueses escrevem lixo venenoso cada vez que as “fontes policiais” lhes dão informação, fazendo notícias que são entretenimento ligeiro. Culpa ainda o público português no seu todo porque meia dúzia de populares se exaltaram no seu voyeurismo chamando nomes a Kate McCann quando foi interrogada na PJ. Tony Parsons faz ainda o favor de tratar o Sr. Embaixador (e por inerência, os portugueses em geral) como “mastigador de sardinhas”, provando que afinal o Portugal moderno não é só conhecido no estrangeiro pelo Galo de Barcelos e pelos Ranchos Folclóricos.

Acerca do caso Maddie, nada me apetece dizer. Acerca da crónica, cada um que tire as suas conclusões sobre o seu autor e a sua visão distorcida que só pode ter origem nas notícias que lê em Inglaterra.

Há, no entanto, duas coisas que me deixam completamente atordoado com esta crónica. A primeira é receber lições de moral mal-educadas de um jornalista que escreve para um jornal tablóide no país que inventou a informação tablóide e que se alimenta todos os dias do caso Maddie (durante algum tempo, a par com os media portugueses) fazendo deste caso a verdadeira novela da vida real, com emoção, horror, drama e intriga. Ou seja, entretenimento ligeiro.

A segunda e verdadeiramente enorme preocupação que se me levanta é saber que o Estado Português, soberano, consegue demitir, afastar ou acabar a comissão de serviço (chamem-lhe o que quiserem) a um inspector da PJ por causa um desabafo que este faz numa entrevista, corrigindo assim um eventual incidente diplomático, mas não quer ou não consegue que um estúpido e arrogante jornalista seja, no mínimo, admoestado publicamente (já para não dizer demitido) por mandar um embaixador estrangeiro levar na bilha, humilhar uma nação, insultar os seus órgãos institucionais e enxovalhar os seus habitantes.

http://reflexoes-e-cidadania.blogspot.com/

O actual estado da Justiça

Respondendo a um desafio do Sorumbático, segue-se um texto sobre o estado actual da Justiça.

Há vários factores que contribuem para o estado actual da justiça:

* A Lei - apesar de geralmente razoavelmente correcta, nasce muitas vezes torta, porque o legislador está desajustado da realidade do país em que vive. Há assim deficiências que cabe aos órgãos da justiça (magistrados, advogados, etc) saber corrigir e adequar com justeza sempre que se justifica.

* Os Actores da Justiça - pode a justiça decorrer com normalidade quando não há condições para a fazer cumprir? Falta de condições e formação para a investigação, falta de meios físicos, técnicos e humanos nos tribunais, falta de uma verdadeira política de reabilitação dos condenados.

* O Estado - é aos seus orgãos que cabe a criação das leis e das condições para que a justiça funcione. Legisle-se ouvindo os actores da justiça, que convivem com a realidade. Criem-se condições para que não se tenha de repetir um julgamento porque as gravações dos depoimentos não têm qualidade. Para que não haja pilhas de processos em cima de secretárias e cadeiras. Por inacção, o Estado cria injustiças quando devia criar justiça.

* As Corporações - defendendo os seus interesses, criam verdadeiros entraves à justiça, desde o lobbying, logo na criação da lei, aos atrasos estrategicamente criados no decorrer dos processos, porque a leveza da prescrição é sempre mais benevolente do que a mão pesada da justiça.

* O Cidadão - alheia-se da justiça. Porque quer. Porque não quer cumprir a lei quando não lhe convém. Porque é chato ter que se preocupar com os outros. Quantos de nós já olhámos para o lado ao ver uma mãe a dar um violento tabefe num supermercado que pode significar abusos repetidos durante anos em casa? Ou quantos de nós seguimos viagem quando presenciámos um pequeno acidente e podíamos ser uma testemunha fulcral para a resolução rápida e justa da questão? Já tiveram um acidente com dezenas de mirones presentes e nenhum que se preste a testemunhar? O cidadão só se lembra da justiça quando ela lhe falta. Nunca quando falta aos outros.

Finalmente, há várias justiças: a dos ricos, a dos pobres e a dos remediados. A primeira é paga pelos próprios, por isso são bem tratados. A segunda é paga pelo Estado, mal e a más horas, pelo que ter um advogado oficioso dedicado e ciente do seu dever é um exercício de sorte. A terceira, que quase não existe, não tem quem a pague, uma vez que não se é rico nem indigente, o dinheiro que se tem é para dar de comer aos filhos.

A justiça serve para manter a lei e a ordem, para garantir direitos e liberdades, mas também para assegurar o cumprimento dos deveres. Se todos os cidadãos e instituições cumprissem diligentemente os seus deveres, todos teriam garantidos os seus direitos e liberdades. E só conheceríamos uma única justiça: a verdadeira!